A CAMINHADA PELAS
CONCEITUAES

1 - Introduo 
1. Estilo adotado na redao do trabalho 
Heidegger (1972), em uma de suas obras, relata como  em suas tentativas desajeitadas para 
penetrar na Filosofia (p. 99)  interessou-se pela Fenomenologia e a ela passou a se dedicar, a partir 
do contato que teve com o livro Investigaes Lgicas, dizendo sobre este: 
A obra de Husseri marcara-me de tal modo que, nos anos subseqentes, sempre a li, sem 
compreender suficientemente o que me fascinava, O encanto que emanava da obra estendia-
se at o aspecto exterior da paginao e da pgina ttulo (p. 100). Provocava uma 
inquietao que desconhecia sua razo de ser, ainda que deixasse pressentir que se 
originava da incapacidade de chegar, pela pura leitura da literatura filosfica, a realizar o 
processo de pensamento que se designava como Fenomenologia. A perplexidade 
desapareceu muito lenta- mente, trabalhosamente solveu-se a confuso, quando pude entrar 
pessoalmente em contato com Husserl (p. 103). 
Fiquei surpresa com estas afirmaes de Heidegger, no apenas por saber de sua genialidade, como, 
tambm, por ter sido ele o filsofo que conseguiu chegar  mais original e significativa interpretao 
desse processo de pensamento, cuja repercusso tem sido to grande, talvez at maior que a do 
prprio Husserl, seu iniciador. 
Alm de surpresa, fiquei consideravelmente aliviada e disposta a aceitar a enorme 
dificuldade que tenho encontrado para compreender a Fenomenologia, no conseguindo 
deslind-la completamente at o dia de hoje. 
2 YOLANDA CINTRO FORGHIERI 
O referido texto do ilustre filsofo inspirou-me, tambm, a rever o que teria me levado a me 
interessar e me apaixonar pela Fenomenologia, e a chegar, finalmente, a reconhecla como o 
fundamento para a compreenso do existir humano, bem como do meu modo de atuar, decorrente 
de tal entendimento, em minha vida profissional e pessoal. 
Minhas lembranas conduziram-me a refletir sobre as razes que levariam uma psicloga a ter 
preferncia por esta ou aquela abordagem, num campo de estudos onde h diversidade de enfoques, 
de idias e princpios bastante diferentes, sendo alguns deles at mesmo opostos. 
O ser humano tem-se preocupado, atravs dos tempos, com o conhecimento e a compreenso de 
sua existncia no mundo. Profundas reflexes e estudos foram feitos, inicialmente, pelos filsofos; 
os primeiros psiclogos surgiram apenas no final do sculo passado, procurando tornar a Psicologia 
uma cincia objetiva. Wundt foi o iniciador desse movimento, fundando, em 1879, o Primeiro 
Laboratrio de Psicologia Experimental. Desde ento, foram surgindo vrias abordagens na 
Psicologia e dentro destas muitas teorias da personalidade. 
Uma das razes para a multiplicidade de abordagens no campo da Psicologia da Personalidade  o 
fato de o psiquismo humano revelar-se atravs do prprio existir e de ser este muito amplo e 
complexo. Os fenmenos psquicos so vividos, imediatamente, pelo psiclogo que os pretende 
estudar, mas, para manter determinada atitude cientfica, ele procura estud-los nas outras pessoas, 
que passam, ento, a ser os sujeitos de suas investigaes. Porm, o existir destes sujeitos no 
apresenta apenas aspectos passveis de observao, em suas manifestaes exteriores, mas contm 
outros que ficam ocultos aos mais competentes e atentos observadores, por ocorrerem no ntimo das 
pessoas. Acontece que estas no so transparentes e geralmente no querem revelar a sua 
intimidade; alm disso, passam por fenmenos que, s vezes, nem chegam a perceber, pois ocorrem 
num nvel muito profundo, que  o seu inconsciente. 
Acresce, ainda, que o existir cotidiano est repleto de aspectos contrastantes. Assim, por exemplo, 
somos racionais e livres, mas no podemos negar que tambm somos determinados pelos 
condicionamentos; dedicamo-nos ao bem-estar de nossos semelhantes, mas, ao mesmo tempo, nos 
empenhamos na nossa prpria realizao pessoal; convivemos com as pessoas e nos relacionamos 
com os animais e as coisas deste mundo, mas, por outro lado, nos confrontamos com a nossa 
solido; experimentamos momentos felizes de grande tranqilidade, mas no conseguimosevitar as 
nossas angstias e aflies. Enfim, vivemos mas tambm morremos, numa paradoxal 
simultaneidade, pois, a cada dia que passa, estamos caminhando tanto no sentido de viver mais 
plenamente, como no de morrer mais proximamente... 
O existir cotidiano imediato  vivenciado como uma totalidade que integra todos os seus aspectos 
complexos e contrastantes, porm, o processo racional de teorizao  parcial, 
delimitador. Todos ns sabemos tantas coisas, de modo vivencialmente global, que no 
A CAMINHADA PELAS CONCEITUAES 3 
conseguimos explicar de modo preciso e completo. Assim acontece, por exemplo, com a ternura que 
sentimos por algum, a alegria que nos envolve e nos engrandece nos momentos felizes, a tristeza 
que nos invade e nos oprime nos momentos de aflio. Quando me perguntam se eu sei no que 
consiste cada uma dessas experincias eu digo que sim, mas se me pedirem para defini-las eu posso 
tentar, porm, todas as minhas explicaes deixam-me sempre a sensao de no ter conseguido 
faz-lo de modo completo. E o que acontece nessas situaes e em tantas outras da vida cotidiana, 
e tambm na vivncia do psiclogo nos momentos de atuao profissional. 
Todas essas complexidades e contrastes tm dificultado a investigao no campo da Psicologia da 
Personalidade pois, como cincia, ela precisa ser elaborada por meio de princpios claros, 
logicamente organizados. Esta situao tem levado os seus estudiosos a investigarem o existir 
humano, focalizando ora uns, ora outros de seus miltiplos e, s vezes, paradoxais aspectos. Assim, 
foram surgindo as vrias teorias psicolgicas, tais como a comportamental, a psicanaltica e a 
humanista, sendo, cada uma delas, um conjunto de formulaes coerentemente articuladas, que 
procuram explicar o ser humano a partir de uma perspectiva que abrange apenas alguns de seus 
aspectos. 
Como estudiosa da Psicologia, tenho refletido muito a respeito dessas dificuldades e, como 
professora, tenho partilhado da inquietao de meus alunos, quando sentem que precisam adotar 
uma posio diante da diversidade que percebem nas diferentes teorias. A inquietao aumenta no 
momento de ultrapassarmos a situao de meros estudiosos e entrarmos na prtica; ou, em outras 
palavras, quando, por exemplo, nos defrontamos com algum que precisa de nossa atuao e 
competncia profissional, para ajud-lo a superar as suas dificudades pessoais. 
Freud, Jung, Skinner, Rogers, Binswanger e tantos outros... Qual deles seguir ou adotar como 
suporte para a nossa prtica de psiclogos? Que autores nos fornecem subsdio para 
compreendermos o modo como vivem as pessoas que solicitam a nossa ajuda, e quais os meios para 
ajud-las a viverem melhor? 
Acontece que o psiclogo tambm  objeto de suas investigaes e reflexes; e ento as perguntas 
tanto se voltam para os seus clientes como para ele prprio. O modo como tenta compreender e 
ajudar outras pessoas , basicamente, o modo como tenta compreender-se e viver do melhor modo 
possvel. 
As teorias psicolgicas surgem a partir da vivncia dos tericos, no s como estudiosos 
e profissionais, mas tambm como seres humanos vivendo cotidianamente nas mais variadas 
situaes. 
A cincia psicolgica est entrelaada  vivncia do psiclogo; e  na alternncia interligada das 
teorias com sua vivncia que ele vai chegando s suas preferncias tericas e convices, como 
profissional e como ser humano, que experimenta alegrias e tristezas semelhantes s dos sujeitos 
que ele pretende conhecer: so convices imbudas de conceitos tericos racionais e de crenas 
que ele no consegue explicar satisfatoriamente, pois surgem 
4 YOLANDA CINTRO FORGHIERI 
no apenas da coerncia de seu raciocnio como, tambm, de seus sentimentos e de sua vivncia 
imediata global. E estes no esto estagnados, mas continuamente abertos  reviso, mudana e 
ampliao, conseqentes aos estudos contnuos e  constante abertura s suas prprias 
experincias. 
Refletindo sobre todos esses fatos, senti necessidade de identificar no apenas as teorias 
e os autores que me influenciaram, mas tambm as vivncias que teriam contribudo para que 
eu sofresse essa influncia e me encaminhasse para a Fenomenologia. 
Enfim, para ser autntica em minhas enunciaes e para facilitar a compreenso  e a crtica  do 
enfoque de personalidade que apresento neste trabalho, considerei ser indispensvel nele incluir os 
vrios elementos que fizeram parte da trajetria que percorri at chegar  sua elaborao. E entre 
eles encontram-se tantos os componentes racionais e objetivos, como os vivenciais e subjetivos, que 
esto presentes em todas as elaboraes cientficas, embora raramente sejam mencionados. 
Por todas essas razes, ao redigir este trabalho, precisei adotar um estilo, de certo modo, 
autobiogrfico pois s assim conseguiria dar conta do que pretendia. E me encorajei a fazlo por me 
sentir apoiada por escritores fenomenlogos, entre os quais destaco Merleau-Ponty (1973) quando 
afirma:  no contato com nossa prpria vivncia que elaboramos as noes fundamentais das 
quais a Psicologia se serve a cada momento (p. 33). 
Assim sendo, o estilo que aqui adoto pode ser considerado como um modo de fazer 
Fenomenologia, como diria Spiegelberg (1975), ou uma forma de viv-la, como afirmaria 
Merleau-Ponty (1973). 
2. Vivncias Iniciais 
A lembrana e reflexo a respeito das primeiras vivncias que poderiam ter propiciado o meu 
encaminhamento para a Fenomenologia reportaram-me, espontaneamente, a uma poca em que 
ainda no tinha o menor interesse pelo estudo de textos cientficos: a minha infncia. Recordo-me de 
que, desde criana, tive a preocupao de estar atenta e procurar compreender as minhas prprias 
experincias e as das pessoas importantes para mim, formando, gradativamente, atravs das 
mesmas, de modo intuitivo e global, um conjunto de crenas e princpios sobre o que hoje poderia 
denominar de personalidade humana. 
A partir da juventude, quando comecei a entrar em contato com as obras de Psicologia, lembro-me 
do quanto algumas delas me intrigaram e impressionaram, por me revelarem algo completamente 
novo e fascinante, que me inquietava e me levava a refletir sobre aquilo em que at ento 
acreditara, levando-me a modificar ou ampliar as idias que havia formado sobre o existir humano. 
Assim foi o meu contato e envolvimento com a Psicanlise. 
Por outro lado, e com maior freqncia, no meu percurso como intelectual, vrias obras 
despertaram-me grande interesse, por perceber, ou apenas pressentir, que continham algo 
para confirmar e esclarecer as minhas convices. Foi o que aconteceu com a maioria dos 
A CAMINHADA PELAS CONCEITUAES 5 
textos de Fenomenologia que, embora me parecessem muito difceis e desafiassem meu raciocnio, 
paradoxalmente, tambm me proporcionavam um sentimento de certa familiaridade; era como se os 
autores me revelassem, em suas formulaes, certo saber elementar, que euj havia vislumbrado 
vivencialmente. Isto aconteceu inmeras vezes, mais sob a forma de sentimento do que de um 
reconhecimento racional. Por esse motivo, encontro dificuldades em identificar e enunciar 
pormenores a esse respeito. Consigo, apenas, vislumbrar duas circunstncias significativamente 
importantes, ambas deconntes do convvio com minha me. 
Uma delas surgiu quando comecei a perceber a enorme oscilao de sentimentos que 
experimentava em relao a ela. Como me extremosa, carinhosa e dedicada proporcionava- me 
momentos imensamente agradveis, de amor e compreenso; porm, no de forma comum, mas 
bastante estranha e, com alguma freqncia, ela se transformava, de modo inexplicvel e repentino, 
numa pessoa profundamente ansiosa e confusa, que no conseguia sequer cuidar de si mesma. Por 
esse motivo, as minhas experincias de amor, tranqilidade e segurana alternavam-se, peridica e 
intensamente, com as de solido, aflio e insegurana. A angstia e a perplexidade diante dessas 
intensas oscilaes suscitaram-me a necessidade imperiosa de agir no sentido de alivi-las. E no 
meu egocentrismo infantil, o recurso do qual comecei a me utilizar foi estar atenta  minha vivncia 
e  dela, para tentar agir de forma a no lhe despertar aquele modo de ser que me afligia 
intensamente. Tudo isto leva-me, hoje, a supor que, desde criana estive, de certo modo, voltada 
para refletir sobre a experincia vivida, ou, em outras palavras, para ir s prprias coisas, que  
um princpio fundamental da Fenomenologia de Husserl. 
A segunda circunstncia, bastante relacionada  primeira, foi a necessidade que, desde muito cedo, 
tive de amar a outras pessoas, alm de minha me, e delas me sentir prxima. Minhas reflexes de 
criana levaram-me a perceber, com muita ansiedade, no ser possvel com ela satisfazer, 
permanentemente, a minha necessidade de amor e carinho, pois, apesar de meus esforos para 
mant-la tranqila e prxima, minha me, periodicamente, em decorrncia de suas perturbaes 
psicolgicas, distanciava-se de mim e se tornava uma pessoa completamente estranha. Isto levou-
me, desde a infncia, a tentar querer bem a outras pessoas e a me sentir perto delas. Por ser ainda 
criana, consegui faz-lo sem defesas ou restries, iniciando-me e, de certo modo, exercitando-
me, satisfatoriamente, na relao Eu-Tu, apresentada pelo fenomenlogo Buber como a mais 
humana forma de existir e adquirir conhecimentos. 
Tais circunstncias, que influenciaram profundamente a minha existncia, tomaram-se atitudes que 
at os dias de hoje marcam o meu modo de viver, parecendo-me terem sido as principais 
propulsoras de meu encaminhamento para a Fenomenologia e meu profundo envolvimento com esta. 
Foram essas circunstncias, tambm, que, quando jovem, levaram-me a sentir um 
enorme interesse pela Psicologia e a transform-la no foco de meus estudos e reflexes. 
6 YOLANDA CINTRO FORGHIERI 
II - Influncia de Psiclogos, Psiquiatras e Filsofos 
no Pensamento da Autora 
Voltando-me para os autores e os textos cientficos que tiveram influncia no desenvolvimento de 
minhas idias, reportei-me, espontnea e agradavelmente, ao incio de minha trajetria como 
leitora de Psicologia, o que aconteceu h cerca de meio sculo, em 1942, quando ingressei na 
Faculdade de Filosofia Cincias e Letras Sedes Sapientiae (Sedes). Estava eu tranqilamente 
entregue s lembranas de minha vida como estudante, quando, de repente, surgiu-me  memria 
uma inumervel quantidade de livros que desabaram sobre mim, envolvendo-me na angustiante 
sensao de precisar identificar todos eles a fim de poder selecionar os que teriam contribudo 
para a formao do meu pensamento atual. 
Desanimada, interrompi a redao deste texto, ficando distraidamente a olhar para a minha 
enorme estante de livros, quase todos lidos, alguns com muito interesse e bastante proveito, a 
maioria deles, porm, lidos com pouco envolvimento e quase completamente esquecidos. Eis que 
meus olhos fixaram-se, casualmente, em uma antiga revista da PUC-SP, que passei a folhear, 
lenta e saudosamente, deparando-me, ento, com um artigo de Montoro (1976), sobre os 
objetivos do ensino do Direito; baseado em Pascal, o autor inicia seu artigo afirmando: 
Cultura, sob certo aspecto,  o que resta quando a pessoa esquece tudo aquilo 
que aprendeu... por isso o ensino no pode se limitar a simples informes. (p.3) 
Esta leitura, casual e oportuna, revitalizou o meu nimo, mostrando-me uma alternativa para rever 
e selecionar os textos que me influenciaram. Decidi considerar, apenas, os autores e textos que 
restaram, por me terem envolvido de forma significativa e profunda, e o que ficou da 
interpretao que tenho dado s suas idias, relacionando-as s minhas experincias de vida, 
tanto profissional como pessoal. 
Foi com esta inteno que, sem recorrer s inmeras anotaes de bibliografia de cursos j 
ministrados ou de textos preparados para conferncias ou publicaes, procurei lembrar-me dos 
autores que foram importantes na minha trajetria em direo ao enfoque fenomenolgico da 
personalidade. 
Lembrei-me, com muita clareza, do primeiro autor que me havia impressionado profundamente: 
foi Freud, em 1943, no 2. ano da Faculdade; a traduo de seus textos, escritos em alemo, 
ainda no faziam parte do acervo da biblioteca do Sedes. Por isso havia tomado contato com a 
psicanlise somente atravs das aulas expositivas de alguns professores; mas, estas haviam sido 
suficientes para me deixarem encantada com suas revelaes sobre o inconsciente, o dinamismo 
deste e suas influncias no modo de pensar e de agir das pessoas, sem que elas disso se 
apercebessem. Embora fosse grande o meu interesse, no 
A CAMINHADA PELAS CONCEITUAES 7 
consegui, nessa ocasio, por falta de material bibliogrfico, continuar meus estudos sobre a 
Psicanlise, o que s aconteceu vrios anos depois, quando, retomando ao Sedes para cursar a 
Ps-Graduao, entrei em contato com as Obras Completas de Freud. Foi quando, alm da 
oportunidade de aprofundar vrios conceitos, conheci a Psicanlise como mtodo psicoteraputico e 
iniciei-me na sua prtica, com a superviso de professores. No cheguei a me tomar uma 
psicanalista, mas, os conhecimentos que adquiri nesse campo foram to marcantes que, desde ento, 
os tenho mantido e considerado, procurando estar atenta s possveis interferncias do inconsciente 
na maneira de pensar e agir de meus clientes e esforando-me por desvend-las em minha prpria 
vivncia. 
O segundo autor que me impressionou profundamente foi Rogers. Iniciei meu contato com suas 
idias, casualmente, em 1965, quando coordenei um curso de reciclagem para professores 
secundrios da rede oficial de ensino, organizado pelo Sedes, em convnio com a CAPES e a 
USP. Maria Jos Werebe, ento professora da USP, utilizou, nesse curso, uma apostila com o 
resumo do livro Client Centered Terapy desse autor (195 1), que despertou meu interessse pela sua 
perspectiva a respeito da personalidade humana. Passei, ento, a localizar e ler esta e outras obras 
desse psiclogo americano (1942, 1951, 1954, 1961), que encontrei na biblioteca da USP. Meu 
envolvimento com Rogers tomou-se to grande, que elaborei a minha Tese de Doutorado (Forghieri, 
1972), adotando como referencial terico, as suas formulaes sobre a personalidade e a 
psicoterapia. Nas atitudes facilitadoras propostas por Rogers (1961, 1967, 1971) havia encontrado os 
fundamentos para a atuao que j vinha desenvolvendo, desde o incio de minha carreira, como 
docente e como psicoterapeuta. 
Devido a referncias feitas por esse autor, fiquei conhecendo algumas idias do filsofo Buber, pelo 
qual interessei-me profundamente, passando a ler, de suas obras, todas aquelas que consegui 
encontrar na ocasio (1947, 1955, 1971). Acabei concluindo, em minha Tese, que as trs atitudes 
facilitadoras apresentadas por Rogers (considerao incondicional, compreenso emptica e 
congruncia) fundamentavam-se na relao Eu-Tu, formulada por Buber, sendo esta a propiciadora 
do crescimento e amadurecimento psicolgico das pessoas e, tambm, o ponto de partida para a 
recuperao das que se encontram psicologicamente enfermas. 
Buber  meu filsofo preferido at o dia de hoje; estou sempre em busca de suas obras, procurando 
encontrar e ler aquelas que esto relacionadas ao psiquismo humano (1974, 1977, 1982). Entretanto, 
fui, gradativamente, afastando-me de Rogers, por vrias circunstncias, algumas das quais lembro 
nitidamente. Uma delas ocorreu na defesa pblica de minha Tese de Doutoramento, em 1973, a 
partir de observaes feitas por um dos examinadores, o competente, querido e saudoso Dante 
Moreira leite. Ele alertou-me para o fato de que eu estava interpretando Rogers, alm do prprio 
Rogers; em outras palavras, indo mais a fundo do que o autor pretendia. Concluiu que eu era muito 
mais fenomenloga do que rogeriana e aconselhou-me a estudar Fenomenologia. Na semana 
seguinte, presenteou-me com dois livros dos psiquiatras e psiclogos fenomenlogos Boss (1963) e 
Binswanger (1963), naquela ocasio ainda no existentes nas bibliotecas e livrarias de So Paulo. 
8 YOLANDA CINTRO FORGHIERI 
Foi assim que me iniciei-me, conscientemente, no enfoque fenomenolgico em Psicologia, ao qual 
dedico-me at hoje. O professor Dante Moreira Leite teve influncia decisiva nesta escolha, no s 
devido s suas palavras e aos importantes livros que me deu, como, tambm, porque a sua 
orientao veio esclarecer vrias insatisfaes que eu j comeara a sentir a respeito da teoria de 
Rogers. Estas foram-se acentuando nos anos seguintes, em decorrncia de algumas situaes que 
vivenciei em minha vida profissional e pessoal. 
Na atuao profissional comecei a notar que alguns de meus clientes encontravam muita dificuldade 
em vivenciar comigo as atitudes facilitadoras de considerao positiva e compreenso emptica, 
aliando-as  congruncia. Conforme pude verificar com eles, posteriormente, isto acontecia por se 
sentirem tolhidos em sua agressividade, que era sua atitude habitual no relacionamento com as 
pessoas. Dialogando com os alunos e observando- os na sala de aula, onde tambm adotava as trs 
atitudes facilitadoras, verifiquei que o mesmo acontecia com alguns deles. Por outro lado, ao analisar 
a histria de vida de minha me, observei que todo empenho da famlia e dos amigos no sentido de 
aceit-la e compreendla, empaticamente, em nada havia contribudo para aliviar as suas crises de 
angstia e impedir o agravamento progressivo da sua enfermidade psicolgica. 
Tudo isto levou-me a questionar a teoria geral das relaes humanas proposta por Rogers (1971), e 
a concluir que nem sempre a manifestao das atitudes facilitadoras de pessoas significativas, 
desperta atitudes semelhantes nos sujeitos e os direciona para o amadurecimento. Sem deixar de 
reconhecer a importncia da aceitao e do amor, mas apenas colocando-os, na expresso de 
Husserl, entre parnteses, comecei a refletir a respeito da raiva e da agressividade, imaginando 
que tambm poderiam contribuir, de algum modo, para o crescimento psicolgico das pessoas. J 
aprendera que ser amado e amar eram necessrios ao processo de crescimento, mas ser ofendido e 
reagir tambm deviam fazer parte desse processo. O prprio Rogers deixara transparecer, em uma 
entrevista filmada, como se sentira revoltado com a educao excessivamente restritiva que 
recebera de seus pais e o quanto isto o estimulara para elaborar sua teoria do relacionamento 
interpessoal tomando-se, assim, renomado psiclogo. 
Uma situao de injustia, ocorrida comigo numa Instituio onde eu lecionava, tambm contribuiu 
para fortalecer a minha idia dos aspectos positivos da agressividade: a coordenadora do curso, com 
bastante m f, de forma velada e utilizando-se de mentiras, pretendeu - e quase conseguiu - afastar-
me da docncia do mesmo. Tomei conhecimento disto, casualmente, atravs de uma funcionria e 
alguns alunos, a tempo de me defender, tratando do problema abertamente com a coordenadora e 
esclarecendo os fatos junto s autoridades superiores; desse modo consegui permanecer no curso, 
mas fortalecida e segura. Lembro-me, nitidamente, do quanto a raiva e o sentimento de revolta pela 
injustia sofrida despertaram toda a minha competncia no sentido de me defender de forma leal e 
eficiente. Percebi, com muita clareza, os aspectos agressivos de minha personalidade, at ento 
muito pouco explorados e o quanto estes podiam favorecer o desabrochar de meus recursos 
pessoais. 
A CAMINHADA PELAS CONCEITUAES 9 
A recordao desse fato trouxe-me  lembrana um curso sobre Rogers, durante o qual assisti a um 
filme sobre Trs abordagens em psicoterapia: Rogers, Peris e Ellis. A princpio fiquei muito 
chocada com a atuao de Peris, quando desafiou frontalmente a cliente que fora tratada pelos trs, 
chamando-a de criana, como se duvidasse ser ela capaz de agir como adulta. Esta, inicialmente, 
ficou muito magoada, chorando, como sempre fazia quando se sentia agredida, mas,  medida que 
ele continuou a desafi-la, ela foi comeando a se sentir revoltada, reagiu e chegou a brigar 
abertamente com ele, passando, ento, a defender-se como uma pessoa adulta. Aps este desfecho 
conclu que as atitudes facilitadoras de Rogers  que a atendera anteriormente  no haviam sido 
suficientes para livr-la de suas constantes lamentaes e prolongadas crises de choro. Contudo, 
no era essa a inteno dos organizadores do filme, que haviam pretendido, atravs da atuao 
contrastante dos dois psicoterapeutas, dar destaque e valorizar o calor humano das atitudes de 
Rogers. 
Nesse panorama, um acontecimento trgico contribuiu para abalar ainda mais a minha viso otimista 
da personalidade: meu pai, um homem caridoso, que sempre ajudara material e espiritualmente as 
pessoas que dele necessitavam, foi violentamente assassinado,  queima roupa, por um ladro, 
dentro do seu prprio lar. Minha me, meus irmos e eu vivemos momentos de enorme sofrimento; 
a perda irreparvel de uma pessoa to querida, a revolta com o acontecimento, a ao precria da 
polcia... Entretanto, a prpria tragdia trouxe uma grande aproximao entre ns, um partilhar 
conjunto do enorme sofrimento, que acabou convertendo-se em muito amor... amor entre ns e 
amor de outros familiares e de uma poro de amigos que nos confortaram nesse momento to 
difcil de nossa vida! Quantos sentimentos opostos e coexistentes vivemos nessa ocasio: raiva e 
amor, revolta e solidariedade. 
Os acontecimentos anteriores e principalmente este ltimo, to profundamente dramtico, deixaram-
me confusa durante algum tempo, at o momento em que comecei a aceitar os paradoxos da 
existncia, seus aspectos contrastantes, os quais, de certo modo, incompreensivelmente, articulam-se 
e complementam-se, passando a constituir uma unidade. Recordei-me da vivncia com minha me, 
na infncia, que me proporcionara experimentar, com muita angstia, os primeiros contrastes da 
minha existncia. 
Todos esses fatos despertaram o meu interesse pela verso existencialista da Fenomenologia, que 
mostra as ambigidades do existir humano, enfatizando a angstia e o 
sofrimento. 
Foi assim que, depois de um perodo inicial de estudos de textos de Freud, seguido de estudos 
aprofundados de Rogers e, posteriormente, de Buber, Binswanger e Boss, passei  leitura de 
filsofos existencialistas como Kierkegaard (1964, 1972), Nietzsche (1973), Sartre (1972) e 
Heidegger (1971 a). Eu sentia uma necessidade enorme de estudar e refletir a respeito do 
sofrimento, da angstia, do nada, da solido humana, pois at ento j estivera voltada, 
exageradamente, apenas para a satisfao, o amor, a bondade e a solidariedade humana. 
Gradativamente, fui compreendendo o enfoque fenomenolgico como aquele que realmente abarca 
o existir humano em sua totalidade, abrangendo a tristeza e a alegria, a angstia e a 
10 YOLANDA CINTRO FORGHIERI 
tranqilidade, a raiva e o amor, a vida e a morte, como plos que se articulam numa nica 
estrutura e cuja vivncia d a cada um dos extremos, aparentemente opostos, o seu real 
significado. Sabemos, verdadeiramente, o que  a tranqilidade, ao vivenciar uma situao de 
angstia; sentimo-nos profundamente sozinhos quando j partilhamos nosso existir com algum; 
sabemos, de fato, no que consiste o infortnio, sej tivemos ocasio de nos sentirmos felizes. 
Completando a lembrana de autores que me influenciaram, recordei-me de um encontro 
ocasional e oportuno, em 1978, com Dr. Van Acker, um antigo mestre do Sedes, que me 
proporcionou, por sua sugesto, tomar conhecimento e envolver-me com a obra do psiquiatra e 
psiclogo fenomenlogo Berg, van den (1973). Depois deste, por indicao bibliogrfica de 
Binswanger, fui ao psiquiatra Minkowski (1970), pelo qual me interessei, sentindo um grande 
envolvimento com suas idias. 
O estudo de psiquiatras fenomenlogos, tais como Binswanger, Boss, Berg, van den e 
Minkowski levaram-me a sentir necessidade de entrar em contato com os filsofos nos quais 
fundamentavam suas formulaes; passei, ento, a examinar textos de Husserl (1965, 1967, 
1970) e de Heidegger (1971, 1972), com o objetivo de esclarecer e aprofundar as referidas 
formulaes. A leitura de obras destes filsofos foi, para mim, inicialmente, bastante difcil, pois, 
alm de serem muito complexas, levaram-me a ter que me debruar e refletir sobre temas 
bastantes abstratos, quando at ento estava habituada a estudar assuntos relacionados  vivncia 
ou ao psiquismo humano, procurando deles extrair ensinamentos que propiciassem melhorar a 
minha atuao profissional. 
De Husseri e Heidegger, fui ao filsofo Merleau-Ponty (1971, 1973), cujos textos facilitaram-me 
o estabelecimento de relaes entre a reflexo filosfica e a reflexo sobre a vivncia, 
propiciaram-me reduzir as dificuldades inicialmente encontradas e me encorajaram a chegar ao 
meu prprio modo de compreender a Fenomenologia. 
III - Razes para a Elaborao de um Enfoque 
Fenomenolgico da Personalidade 
O enfoque fenomenolgico em Psicologia surgiu no campo da Filosofia, no incio deste sculo, 
mas s tomou impulso e se desenvolveu a partir da dcada de 50; at os dias atuais, entretanto, 
no chegou a constituir um conjunto de princpios articulados, unanimemente aceito pelos 
psiclogos que o adotam. 
Isto acontece devido a uma srie de dificuldades que surgem quando estes cientistas procuram 
explicit-lo. Uma delas decorre do fato desse enfoque ter como suporte fundamentos filosficos 
que so estritamente abstratos, e a Psicologia ser uma cincia de fatos, que est voltada para a 
concretude da vivncia. Tal dificuldade  significativamente ampliada, em virtude da 
Fenomenologia apresentar-se apenas como um mtodo de investigao do 
A CAMINHADA PELAS CONCEITUAES 11 
fenmeno; embora, este seja inseparvel da atitude originada do modo como ela considera o 
fenmeno, no chega a constituir um conjunto de princpios igualmente interpretados pelos filsofos 
a ela pertencentes. 
Nesse panorama, tm surgido algumas propostas de enfoque fenomenolgico na Psicologia 
elaboradas principalmente por psiquiatras e psiclogos europeus, que contm importantes 
contribuies para a compreenso do existir humano, priorizando uma ou algumas de suas 
caractersticas bsicas, no chegando, entretanto, a constituir um enfoque psicolgico pormenorizado 
da personalidade. 
Alguns psiclogos americanos, tais como Giorgi (1978), Keen (1979) e Kruger (1981) tambm se 
tm dedicado  elaborao de uma Psicologia Fenomenolgica. Entre estes, Giorgi (1985), que  o 
mais renomado, considera que uma genuna Psicologia Fenomenolgica ainda no existe, e a razo 
 o fato da Fenomenologia ser compreendida basicamente como uma filosofia, com implicaes para 
a Psicologia, ao invs de contribuir concretamente para o desenvolvimento de uma Psicologia 
Fenomenolgica (p. 5). 
A falta de uma abordagem fenomenolgica pormenorizada da personalidade, elaborada em 
linguagem psicolgica e no apenas filosfica que rena os aspectos mais importantes da vivncia 
humana, tem dificultado sobremaneira a compreenso e explicitao dos fundamentos 
fenomenolgicos que norteiam a prtica profissional no campo da psicoterapia, do ensino e da 
pesquisa. Neste ltimo, especialmente, verifica-se uma quase impossibilidade de interpretao e 
comparao dos resultados das investigaes, fato que prejudica o progresso e aprimoramento do 
prprio enfoque fenomenolgico da personalidade, pois faltam, a este, alguns parmetros a serem 
verificados de forma sistematizada, a fim de serem confirmados e ampliados ou refutados e 
enriquecidos com novas formulaes. 
Considero que o princpio bsico do mtodo fenomenolgico (introduzido por Husserl), de ir s 
prprias coisas, ou, em outras palavras, de ir ao prprio fenmeno para desvendlo, tal como se 
mostra em si mesmo, independentemente de teorias a seu respeito, refere- se a estas, tal como tm 
sido elaboradas por meio da utilizao do mtodo experimental, que no leva em conta a 
intencionalidade. Entretanto, no diz respeito s vrias formulaes que tm surgido atravs do 
emprego do prprio mtodo fenomenolgico. Julgo importante que tais formulaes sejam levadas 
em conta na realizao de pesquisas fenomenolgicas, no como mtodos rgidos de interpretao, 
mas, como parmetros flexveis que permitam confirm-las, descrevendo-as melhor, ou refut-las, 
modificando-as; nesse processo, a vivncia humana deve sempre servir de contraponto, pois, na 
Psicologia, ela  a origem de todas as elaboraes conceituais. 
Penso que a crtica feita pela Fenomenologia  elaborao e utilizao de teorias, neste 
caso, psicolgicas, diz respeito ao modo pretensamente objetivo como estas tm sido 
elaboradas e utilizadas. 
Por todas as razes acima descritas, considerei que a elaborao de um enfoque 
fenomenolgico da personalidade seria uma significativa contribuio para esta rea da 
Psicologia ainda pouco explorada sob tal perspectiva. 
